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Minha
primeira vez
Não importa quando foi, o que importa é saber que
era noite e que já faz tempo. Eu caminhava pela cidade, quando
ouvi o alguém dizer:
– Passa a grana ou eu passo a faca, manôô –
bem assim, com o “ô” puxado.
Como sou meio lerdo com frases rápidas, demorei alguns segundos
antes de entender que era um assalto. O primeiro de minha vida.
Ele estava de costas, não o via. Mas senti que de algum lugar
vinha um cheiro de cola.
– E bico fechado que se não tu vai é bicar lá
no inferno.
“Olha aí, com essa facilidade para inventar trocadilhos
você bem que você poderia ser escritor ao invés
de assaltante”, tive vontade de sugerir. Mas calei porque
logo senti alguma coisa espetando as costas. Vi de soslaio que era
um canivete. Por Deus, ser assaltado por um cara fedendo a cola
e ainda por cima segurando um canivete, todo desajeitado?! Acho
que era a primeira vez dele também. E o coitado estava sem
sorte porque pegou justo eu, a criatura mais sem grana num raio
de mil quilômetros. Já tinha horas que minha carteira
não reconhecia o aroma do dinheiro. Que fracassados, nós
dois. Resolvi, portanto, parar com aquela palhaçada e fazer
aquele projeto de assaltante se mandar dali. Afinal, sempre pensei
que a primeira vez teria que ser mais especial do que aquilo. Pelo
menos um revólver, né?
Então inclinei a cabeça, baixei as pálpebras
até a metade, entortei um pouco a boca e me virei para encarar
aqueles olhos, resumidos a pupilas:
– Bah, véio. Tô sem um puto no bolso e também
tô afim de descolar uma grana prum bagulho.
– Pô, manôô, desculpa aê. –
disse o outro, guardando aquele canivete patético e se afastando.
– Valeu, manôô – me despedi.
E enquanto me lembro do episódio, tenho a impressão
de que pronunciei o “ôô” com uma leve inclinação
para “éé”. Por se tratar da primeira vez,
me saí muito melhor do que aquele mané.
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